A face obscura da medicina: burnout de médicos

Escrito por Dr. Caio Magno

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Estudos e mais estudos mostram que 50% dos médicos tem burnout e que a consequência são mais erros, cuidado ruim, perda de produtividade, mais processos de pacientes e adoecimento do profissional.

Quando se pensa em um médico, talvez o que venha à mente, num primeiro momento, é o cuidado. Surge a imagem do senhor bondoso, compassivo à beira do leito do paciente. Seu objetivo é ajudar a curar ou melhorar os males das doenças. Recordo-me bem do quinto semestre de medicina, quando estava na disciplina semiologia médica. Um dos professores perguntou a cada qual de nós: “por que você escolheu medicina”? São muitos os motivos e em todas as respostas existia também o desejo que ajudar, cuidar.

A mesma resposta é comum entre outros profissionais de saúde como enfermeiros, fisioterapeutas, etc. Todos desejam cuidar de seus pacientes. E o desejo de cuidar pode virar um problema de saúde? Sim, e falamos então de burnout. Que seria isso? É uma doença ocupacional relacionada à exaustão de cuidar. São 3 componentes:

Exaustão emocional: não conseguir oferecer mais de si no trabalho

Despersonalização: distanciamento dos pacientes, dificuldade de reconhecer sua humanidade, passando a tratá-los como objetos.

Falta de realização pessoal no trabalho: enxergar o trabalho como sem sentido.

Quase 50% dos médicos apresentam burnout nos dias de hoje. É uma verdadeira epidemia. E que fatores estão relacionados? Existem componentes do profissional, da natureza do trabalho, do excesso de horas e da organização onde o médico está inserido.

O panorama é o seguinte. Médicos trabalham longas horas, em esquema de plantões de 12, 24, 36 horas. Lidam com dificuldades, riscos, problemas emocionais, agressividade de doentes, morte, desespero, tudo isso na sua rotina. E cuidar do outro em excesso pode gerar o que é chamado de fadiga compassiva. É como se fosse cansar de cuidar do outro pois o profissional está precisando de cuidado.

Outro ponto extremamente importante relacionado à doença é falta de autonomia, controle de horários e ausência de participação em decisões relacionadas ao próprio trabalho. Esses componentes são bem importantes no contexto das instituições de saúde,que geralmente não dialogam com os médicos sobre suas necessidades. Simplesmente vão fazendo as mudanças sem consultas e sem o reconhecimento do impacto já na saúde debilitada do trabalhador.

Existem também fatores pessoais. Profissionais que exigem mais de si, mais idealistas sofrem mais. Eles desejam dar o melhor de si num contexto que inviabiliza isso, ou seja, excesso de demanda, horas, atendimentos, cansaço. A cansaço é real e o médico não consegue acompanhar sua própria demanda de cuidar. O resultado é auto-crítica, auto-exigência e reconhecer o trabalho como ruim e sem sentido, ou seja, o terceiro componente do burnout.

Estudos e mais estudos mostram que 50% dos médicos tem burnout e que a consequência são mais erros, cuidado ruim, perda de produtividade, mais processos de pacientes e adoecimento do profissional. E por que não se toca nesse assunto? Por que os profissionais médicos das instituições de saúde não enxergam e cuidam dos seus próprios médicos?

São alguns fatores. O médico ao longo do tempo vai perdendo o contato com a própria humanidade, ficando menos compassivo, se endurecendo. É assim que se aprende nas universidades. “Você não pode ser fraco, demonstrar emoções, você precisa ser forte, você é médico e dá conta de tudo, você está no caminho do sucesso, existem médicos e não médicos e onde você está”? Boa parte do sistema de saúde cuida de doenças e não de pessoas. O aprendizado é voltado para isso, resolver problemas. Cansaço, depressão, fadiga, seriam simplesmente elementos de fragilidade, facilmente contornáveis. Existe uma enorme desconexão entre os profissionais e seus superiores. E um dos motivos é a busca incessante por enxugar gastos e aumentar rendimentos, e isso também à custa do trabalho do médico.

Felizmente essa questão está sendo visto em países europeus e nos Estados Unidos, através do reconhecimento que um médico doente cuida mal e gera problemas. No Brasil, esperamos que esse olhar mais compassivo em algum momento chegue.

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